Domingo, 25 de Abril de 2010

"Um Toque de Jazz" em Abril (4)

 

 

 

 

Um Toque de Jazz é transmitido aos Domingos, das 23:05 às 24:00, na Antena 2 podendo ser ouvido em FM ou ainda aqui via webcast.  Após a sua transmissão, os programas passam a estar disponíveis, também via Internet, na página de arquivos multimédia da Antena 2 ou regressando a esta página para clicar em ouvir aqui, nas datas das respectivas emissões.

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Domingo, 25.04.10 –  Novos Discos (4):  Miguel Zenón (Esta Plena);  Bobby Hutcherson  (Wise One);  Steve Kuhn-Joe Lovano  (Mostly Coltrane);  Christian Scott (Yesterday You Said Tomorrow);  Barcelona Jazz Orquestra (Once Upon a Time); John Irabagon  (The Observer);  André Matos  (Quare);  John Hebert  (Spiritual Lover).

 

 

 


 

 

 

 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 12:47
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Domingo, 18 de Abril de 2010

Da "fábrica de sonhos" às memórias cinéfilas

 

(Texto para a Folha de Sala do concerto pelo Quarteto de Ted Nash, Culturgest, 13.04.10)

 

Chegados sensivelmente a meio da programação de jazz deste ano que, na tradição desta casa, procurou, tanto quanto possível e em função de disponibilidades de vário tipo, seguir o princípio da inclusão e não da exclusão, bem como conciliar a presença de várias direcções estéticas hoje coabitando na cena do jazz internacional, o concerto que esta noite nos espera insere-se, mais do que qualquer outro, numa linha de evocação algo nostálgica  (mas não passadista)  da grande tradição do jazz.

 

Vários factores contribuem para tal.  Por um lado, um repertório que soa familiar e reconhecível, extravasando as fronteiras do próprio jazz e do cancioneiro popular que o alimentou durante anos e que é oriundo de uma das artes de massas mais populares de sempre: o cinema.  Por outro lado, a feliz conjugação da evocação das nossas próprias memórias cinéfilas, enquanto receptores, com a da expressão musical de um outro tipo de memórias, mais directamente relacionada com os bastidores dessa “fábrica de sonhos” que eram os estúdios de cinema e de gravação sonora, experimentadas por um dos principais protagonistas do concerto de hoje.

 

Com efeito, o saxofonista Ted Nash – com uma carreira já extensa desde que, ainda miúdo, frequentava os principais meios jazzísticos de Los Angeles, onde nasceu, até ao estatuto de um dos principais solistas da Lincoln Center Jazz Orchestra e de líder e co-responsável de vários e fecundos projectos musicais –  está numa posição particularmente privilegiada como veículo transmissor dessas memórias.

 

Filho do trombonista Dick Nash e sobrinho do saxofonista seu homónimo Ted Nash (ambos músicos de jazz de algum relevo e, em grande parte da sua actividade profissional, muito solicitados pelos grandes estúdios de gravação de Hollywood), este instrumentista e compositor altamente conceituado na cena nova-iorquina actual tinha por hábito acompanhar os seus familiares músicos no seu quotidiano profissional, desde cedo contactando com outros grandes nomes do jazz que funcionavam nessas orquestras de estúdio como músicos de estante especialmente eficazes, versáteis e talentosos.


Essa indispensável e estimulante experiência, a par do estudo e da prática desde tenra idade de vários instrumentos, permitiu-lhe aos 16 anos participar numa tournée ao Hawai como membro da orquestra de Lionel Hampton e de, com a mesma idade, passar numa audição para sax-alto lead na orquestra de Quincy Jones!  Nos anos seguintes, sucederam-se outras experiências enriquecedoras integrando as orquestras de Don Ellis, Louie Bellson ou Toshiko Akiyoshi, pouco depois constituindo o seu primeiro quinteto e arrancando em definitivo para uma carreira até hoje recheada de êxitos.

 

(Fotos do ensaio de sound check:  cortesia de Rosa Reis)

 

Percebe-se então que este Mancini Project que Ted Nash hoje traz até nós tenha sido por ele especialmente acarinhado, uma vez que nessa época de ouro situada entre os anos de 1960 a 1970 Henri Mancini foi um dos compositores para o cinema em cuja orquestra participaram não só seu pai e seu tio como o seu próprio professor de saxofone e clarinete Ethmer Roten e ainda outros grandes músicos de jazz da Costa Oeste, entre os quais os irmãos Conte e Pete Candoli (trompetes),  Larry Bunker ou Shelly Manne (bateristas)  e até o genial Art Pepper.

 

Não sendo propriamente um músico ou um compositor do domínio do jazz, este não era de forma alguma estranho a Mancini, ele que vinha de uma área transversalmente comunicante entre géneros, como a das grandes big bands, enquanto arranjador, por exemplo, para a orquestra de Glenn Miller em finais dos anos de 1940. E naturalmente que a corrente cool nascida com o jazz moderno, a par da sua expressão West Coast tão específica da região da Califórnia, lhe eram inteiramente familiares.

 

Mesmo assim, tendo em consideração estas relações mais ou menos directas mantidas com o mundo do jazz, não pode dizer-se que a música de Mancini tenha particularmente inspirado personalidades desta corrente na sua obra discográfica, sendo facilmente enumeráveis alguns dos que ao longo dos anos se interessaram por ela e a recriaram:  os saxofonistas Phil Woods e James Moody ou o vibrafonista Joe Locke e poucos mais.

 

Considerado um dos compositores mais importantes e prolíficos do cinema norte-americano, com cerca de duas centenas de bandas sonoras no seu activo, Henri Mancini não deve, a meu ver, ser apenas circunscrito à música para o cinema popular ou mais ou menos sofisticado e mundano, como a série Pink Panther (iniciada em 1963)  ou Breakfast at Tiffany’s (1961, também de Blake Edwards)  mas ainda como autor ligado a obras de maior fôlego na história do cinema, como a obra-prima Touch of Evil (Orson Welles, 1958)  ou ainda Charade (Stanley Donen, 1963)  e The Glass Menagerie (Paul Newman, 1987),  para apenas referir estes, ou mesmo a série policial televisiva Peter Gunn, famosa na passagem dos anos de 1960 para 1970 e que foi a primeira em que regularmente figurava em cena um quinteto de jazz.

 

É assim interessante e significativo que Ted Nash tenha escolhido, de um infinito repertório possível e de êxito seguro como é o de Mancini, alguns temas que não fazem necessariamente parte dos mais conhecidos e populares.  Rodeando-se para a edição discográfica deste Mancini Project (Palmetto, 2008)  de quatro músicos inteiramente identificados consigo  – Frank Kimbrough (piano),  Rufus Reid (contrabaixo)  e Matt Wilson (bateria)  –  Nash terá desta vez em palco, a seu lado, dois talentosos substitutos dos dois últimos:  o contrabaixista Jay Anderson e o baterista Ali Jackson.

 

Mas é pela especial ligação musical existente entre Ted Nash e Frank Kimbrough – eles próprios associados na fundação de um dos núcleos mais importantes e criativos do jazz nova-iorquino de hoje, o Jazz Composers Colective –  que muitos dos melhores momentos deste concerto porventura passarão, desde logo no excepcional dueto  (sax-tenor/piano)  que muito provavelmente nos dará a ouvir a atmosfera única e emocionante de Cheryl’s Theme, que pessoalmente me faz lembrar os magníficos duetos de Stan Getz com Kenny Barron.

 

Saxofonista de um estilo muito pessoal e identificável, Ted Nash insere-se aliás (consoante a natureza das peças tocadas)  na linha evocativa dos melhores continuadores dos grandes mestres, como o já citado Getz, Dexter ou Coltrane, embora desdobre a sua personalidade e marque o seu estilo em outros instrumentos que provavelmente tocará, como o clarinete, a flauta e o sax-soprano.

 

Entre os temas que muito possivelmente completarão o repertório desta noite, permito-me ainda chamar a atenção do espectador para o contraste entre a introdução em rubato e o vigoroso swing da exposição e resolução do tema e improvisações em Dreamsville;  o ambiente misterioso e shortereano de Night Visitor ou o modalismo de Experiment in Terror;  a delicada utilização da flauta em Soldier in The Rain;  as dedicatórias do próprio Mancini ao pai de Ted Nash (Something for Nash, do filme Blind Date)  ou ao seu tio  (A Quiet Happening, da série Peter Gunn)  ou, por último, as mudanças harmónicas e a naturalidade melódica de Breakfeast at Tiffany’s, tema que inevitavelmente associamos à fabulosa elegância de Audrey Hepburn na madrugada de Nova Iorque, com a sua longa boquilha e as suas luvas de veludo preto afagando um cálice de martini.

 

Irresistível!

 


 

Em tempo:

 

Aproveite já agora para ouvir  (como se fosse um bónus)  um concerto realizado pelo Quarteto de Ted Nash com o Mancini Project no Festival de Jazz de Detroit e apresentado no programa JazzSet (WBGO) de Dee Dee Bridgewater...

 


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 12:02
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Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

Jazz gravado em estúdio e ao vivo

 

 

Aqui lhe deixamos mais duas hipóteses de ouvir bom jazz, ao vivo ou gravado em estúdio.

 

 

 

A primeira sugestão é a de escutar a actuação do trio do pianista Sam Yahel, numa gravação realizada ao vivo na passada 4ª. feira 14 no Village Vanguard de Nova Iorque, no quadro da colaboração entre a NPR e o próprio clube para festejar o seu 75º. aniversário.  O trio de Sam Yahel é constituído por Matt Penman (contrabaixo)  e Jochem Rueckert (bateria).

E poderá ouvir esta actuação aqui.

 

 

 

 

 

Se preferir a qualidade da gravação de estúdio  (sem interferências dos ruídos de público),  então a sugestão vai para a audição, aqui, do trompetista-revelação do momento, Christian Scott, com o seu quinteto, no estúdio 4B da própria NPR.   São três as peças que fazem parte do repertório do seu último álbum Yesterday You Said Tomorrow, cuja apreciação crítica plural pode ler aqui, no site Jazz 6/4, cuja edição nº. 4 já está no ar.

 

Boa música!

 

 


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:44
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"Um Toque de Jazz" em Abril (3)

 

 

 

 

Um Toque de Jazz é transmitido aos Domingos, das 23:05 às 24:00, na Antena 2 podendo ser ouvido em FM ou ainda aqui via webcast.  Após a sua transmissão, os programas passam a estar disponíveis, também via Internet, na página de arquivos multimédia da Antena 2 ou regressando a esta página para clicar em ouvir aqui, nas datas das respectivas emissões.

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Domingo, 18.04.10 –  Novos Discos (3):  Bernardo Sassetti  (“Motion”);  Chris Lightcap’s Bigmouth (“DeLuxe”);  Fred Hersch  (“Plays Jobim”);  Marty Ehrlich Rites Quartet  (“Things Have Got to Change”);  Brian Groder &  Burton Greene Quartet  (“Groder & Green”);  Rudresh Mahanthapaa &  Steve Lehman Quintet  (“Dual Identity”);  John Holenbeck Large Ensemble  (“Eternal Interlude”).

 

(ouvir aqui)

 


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:23
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Sábado, 10 de Abril de 2010

Fred Hersch: o ressurgimento de um Artista

 

 

 

(Texto para a Folha de Sala do recital a solo de Fred Hersch, Culturgest, 26.03.10)

 

Não tenho de forma alguma a ideia de que Fred Hersch saiba, no momento em que o espectador lê estas linhas, aquilo que dentro de momentos vai tocar quando entrar naquele palco.

 

Julgo que, muito provavelmente, só decidirá qual a primeira peça a escolher quando finalmente se sentar ao piano e porventura começar por enunciar e depois desenvolver, como se de uma espontânea composição em tempo real se tratasse, uma introdução mais ou menos longa, durante a qual derivará imperceptivelmente pelas várias regiões do piano, avaliará como este soa com a sala repleta, sentirá a respiração do público em meio da uma silenciosa expectativa e avaliará o estado da sua própria inspiração no momento da verdade, para só um pouco mais tarde encetar o desvio no sentido de tornar claros e fazer ecoar os primeiros contornos, as primeiras notas e acordes, de uma primeira peça.

 

Embora pelo que lhe conheço de anteriores recitais ao vivo ou em disco, eu esteja quase seguro de que as coisas poderão ter um início assim, é também possível, pelo contrário, que as ideias já estejam afinal claras no momento de caminhar os primeiros passos na sala escura, que o artista já sinta o grau de confiança com que vai atacar aquele nobre instrumento de que se aproxima e como vai porventura agarrar de imediato o público que o aguarda.

 

É este o mistério do jazz, sobretudo neste tipo de acto criativo individual em que há que contar consigo próprio, sem outros músicos que acompanhem o desbravar do desconhecido e apenas armado do conhecimento e da cultura acumulada em tantas outras situações criativas semelhantes tendo como pano de fundo a história e o percurso de uma música que nasceu frágil e ingénua  (mas logo, sem o saber, poderosa nas suas potencialidades como Arte)  e hoje se afirma como um dos caminhos mais exigentes e apaixonantes da Grande Música.

 

Em boa verdade, está só ao alcance dos raros talentos do jazz um recital de grande duração, em solo absoluto.  Instrumentista de impressionante destreza técnica, sabendo extrair do piano uma multitude de cambiantes tímbricas e assim criando os diferentes estados emocionais que só o grande piano nos pode oferecer, Fred Hersch alcançou, sem dúvida, ao longo de uma carreira de trinta anos, o estatuto desses raros, tendo já tocado em salas prestigiadas como o Carnegie Hall de Nova Iorque ou o Concertgebouw de Amesterdão.

Desde a mais singela e cantável melodia à peça mais complexa nos seus intrincados meandros, o pianista está do mesmo modo à vontade e é igualmente solene, contido (ou explosivo)  na forma como nos devolve o essencial de ambas, desprezando o supérfluo e sempre sabendo sublinhar o inesperado, o insólito, o irresistível.

 

Transformando positivamente a variação e a improvisação jazzística num  (quantas vezes)  arrebatador estado de criação e composição instantânea, Hersch faz parte ainda daqueles eleitos para os quais o teclado se transfigura numa verdadeira orquestra e mesmo as peças do repertório clássico do jazz ou os standards do cancioneiro norte-americano que vai buscar a terceiros se transformam em composições próprias, com uma marca de origem inconfundível.

 

A exemplo de outros grandes músicos de jazz seus contemporâneos, Fred Hersch multiplica os seus projectos pessoais na área do jazz e mesmo nas aproximações que por vezes faz, em termos de composição, a outras áreas musicais, como a música popular ou a música erudita.  Grande cultivador das baladas, apaixonado pela forma-canção, amplo conhecedor das várias tradições do jazz e do seu repertório clássico e moderno e compositor de grande e singular sensibilidade, ele admira sobretudo autores sem dúvida “especiais” na história do jazz, como Thelonius Monk, Charles Mingus, Ornette Coleman ou Wayne Shorter.  Mas ele próprio sublinha como, no seu tempo de adolescente, se interessava por James Taylor ou Joni Mitchell e pelo pessoal da Motown, Stevie Wonder ou Marvin Gaye.

 

Não admira assim que, para além de dirigir formações instrumentais de variada amplitude e constituição, às quais transmite um indesmentível cunho pessoal, Fred Hersch tenha tocado ao lado de grandes figuras do jazz, como Stan Getz, Joe Henderson, Lee Konitz ou Art Farmer, para apenas referir algumas das maiores.

 

Tendo feito a sua formação académica clássica e aprofundado a sua especialização em jazz no Departamento de Jazz do Conservatório de New England (dirigido por Günther Schuller),  onde teve como professores Jaki Byard, George Russell ou Jimmy Giuffre, Fred Hersch sempre considerou um meio de aprendizagem prática essencial o circuito dos clubes, que muito frequentou.

 

Depois de se radicar em Nova Iorque em 1977  (apenas com 21 anos de idade),  teve a sorte de arranjar um loft perto de um clube de referência, o Bradley’s, uma verdadeira “universidade” que todas as noites frequentava, vendo e ouvindo em pessoa os grandes mestres.  Ali pôde então conhecer muitos dos seus ídolos, como Hank Jones, Tommy Flanagan ou Jimmy Rowles.  Ali Kirk Lightsey lhe ensinou as harmonias de muitas obras de Billy Strayhorn.

 

Não sendo um bopper nem um incondicional da improvisação livre, Hersch é no entanto um conhecedor profundo das várias etapas da evolução do jazz, um músico inclassificável, intemporal, cultivador de um lirismo e de uma expressividade únicas, que se manifestam particularmente nos seus trabalhos discográficos a solo, dos quais deve destacar-se a trilogia Songs Without Words (uma caixa de 3 CDs, datada de 2001)  que o pianista divide em três linhas essenciais  – originais de sua autoria, peças de jazzmen célebres e recriações de obras de Cole Porter –  e à qual estava previsto acrescentar um quarto volume dedicado a António Carlos Jobim, o qual  (gravado também em 1991)  apenas agora foi editado em CD autónomo, sob o título Fred Hersch: Plays Jobim (2009).  Ao mesmo tempo, é fundamental destacar a circunstância de Fred Hersch ter sido o primeiro  (e até ao momento o único)  pianista de jazz a tocar a solo, num contrato de uma semana, num conhecido templo do jazz de Nova Iorque: o Village Vanguard.

 

Entretanto, prosseguindo a referência à sua discografia indispensável a solo, não podem deixar de mencionar-se, pela sua importância:  Live at Maybeck Recital Hall, Vol. 31 (1993);  I Never Told You: Fred Hersch Plays Johnny Mandel (1994);  Plays Billy Strayhorn (1995);  Thelonius: Fred Hersch Plays Monk (1997) e os fabulosos Let Yourself Go: Live at Jordan Hall (1999) ou Live at Bimhuis, Amesterdão (2006).

 

A última década viu revelarem-se e afirmarem-se, no domínio do jazz, um punhado de pianistas que se distinguem dos seus pares por uma notável afirmação de personalidade e individualidade, entre os quais se encontram  (por razões e peculiaridades muito diversas)  um Brad Mehldau, um Ethan Iverson, um Jason Moran, um Vijay Iyer.  Mas seria injusto esquecer, antes deles, este não muito falado mas altamente original Fred Hersch, aliás professor dos dois primeiros, com mais de 20 álbuns gravados sob o seu nome e duas nomeações para os Grammy do Jazz.

 

Na realidade, é impossível não ficar rendido ao modo como Hersch nos dá a ouvir as suas próprias composições ou as suas versões de peças conhecidas, quase sempre recusando desvendar-nos logo de início todos os dados e, portanto, impedindo-nos de meramente assistirmos  (de uma forma preguiçosa e sem qualquer esforço)  àquilo que tem para nos propor:  o jogo pontilhado e salpicado de pausas e de silêncios, tantas vezes provocando uma sensação de permanente inquietação e busca que nos estimula a tentar seguir esse percurso criativo.  Depois, a torrente de ideias  (traduzida nas notas que jorram pelo teclado, às vezes sobre uma insistente nota pedal)  contrasta ou insere-se num desenvolvimento harmónico que suscita novos caminhos de improvisação, conduzindo por fim à resolução do problema e à explicitação do mistério que assim nos é narrado, com o anúncio final  (e mesmo assim mitigado)  da matriz temática sobre a qual tudo se desenvolveu.

 

Hoje com 55 anos de idade, desde 1986 que o pianista é atormentado por doença extremamente grave que o agarrou e que paira de forma sinistra e sombria sobre o seu dia-a-dia e sobre a sua Arte e que, em 2008, o afundou numa crise de oito meses de internamento e reabilitação, dos quais dois em estado de coma e quase demência.

 

Recuperando com grande força de vontade pessoal as mais elementares funções físicas vitais e readquirindo pouco a pouco as suas capacidades intelectuais  (quase tendo de reaprender a tocar piano!),  é através de um revigorado ressurgimento na cena musical que vê editados em 2009 dois novos álbuns  – a já referida homenagem a Jobim e uma actuação ao vivo no Village Vanguard com a sua Pocket Orchestra –  regressando também ao circuito das tournées e das residências e chegando agora a Lisboa vindo de dois concertos em duo e de um workshop na Bélgica e na Áustria.

 

Sempre apaixonado pela docência, Fred Hersch dá aulas, todos os 15 dias, no New England Conservatory (em Boston)  e é professor residente na Western University de Michigan, duas vezes por ano.

 

Entre as suas mais belas pequenas composições, destacam-se Gravity’s Pull, Valentine, Endless Stars, At the Close of the Day, Dreamscape, Black Dog Pays a Visit, Invitation to the Dance, A Lark, Lee’s Dream ou Lost in Another Time.

 

Dos projectos que tem entre mãos, há notícia de um ciclo de canções inspiradas na pintura e na arte fotográfica  (em colaboração com a poetisa Mary Jo Salter);  uma colecção de peças de jazz em honra de uma série de músicos, escritores e bailarinos que o pianista admira;  uma suite baseada sobre temas de Tchaikovsky;  e, acima de tudo, o seu projecto mais pessoal e provavelmente mais ambicioso:  nas suas próprias palavras, o Coma Project.

 

 


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 13:08
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"Um Toque de Jazz" em Abril (2)

Um Toque de Jazz é transmitido aos Domingos, das 23:05 às 24:00, na Antena 2 podendo ser ouvido em FM ou ainda aqui via webcast.  Após a sua transmissão, os programas passam a estar disponíveis, também via Internet, na página de arquivos multimédia da Antena 2 ou regressando a esta página para clicar em ouvir aqui, nas datas das respectivas emissões.

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Domingo, 11.04.10Novos Discos (2) – Anke Helfrich Quartet (“Stormproof”); Komeda Project (“Requiem”); John Patitucci Trio (“Remembrance”); John Abercrombie Quartet (“Wait ‘Till You See Her”); Ricardo Pinheiro Sexteto (“Open Letter”); Lotte Anker Trio (“Floating Islands”); Rez Abbassi Quintet (“Things to Come”).

 

(ouvir aqui)

 

 

 


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 12:14
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Sexta-feira, 2 de Abril de 2010

"Um Toque de Jazz" em Abril (1)

 

 

 

Num tempo em que a distribuição do jazz entre nós atravessa uma enorme crise e em que as próprias majors negligenciam a qualidade dos seus catálogos e o próprio esforço de divulgação do bom jazz que se vai fazendo um pouco por todo o mundo, é oportuno fazer ouvir na rádio o que de melhor vai chegando, apesar de tudo, às discotecas portuguesas.

 

Neste sentido, Um Toque de Jazz vai preocupar-se este mês com a divulgação de alguns dos mais interessantes títulos que, sobretudo publicados por editoras independentes, dão um retrato o mais fiel possível do estado da arte neste domínio.

 

Entretanto, com a cada vez maior proliferação das vendas de discos via Internet e mesmo com a venda directa dos próprios músicos para ultrapassar os gostos e as limitações do “mercado”, não se estranhará que alguns desses títulos estejam ausentes da distribuição em Portugal, circunstância que não pode (nem deve) impedir a sua divulgação.

 

Um Toque de Jazz é transmitido aos Domingos, das 23:05 às 24:00, na Antena 2 podendo ser ouvido em FM ou ainda aqui via webcast.  Após a sua transmissão, os programas passam a estar disponíveis, também via Internet, na página de arquivos multimédia da Antena 2 ou regressando a esta página para clicar em ouvir aqui, nas datas das respectivas emissões.

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Domingo, 04.04.10 –  Novos Discos (1):  Travail, Transformation, and Flow (Steve Lehman Octeto);  Generations (Miles Okasaki Quarteto);  Stone in the Water (Stefano Bollani Trio);  Dark Eyes (Tomasz Stanko Quinteto);  Haunted Gardens (Jeffery Davis Quarteto);  Reflections (Kurt Rosenwinkel Standards Trio);  Live at the Monterey Jazz Festival 2007 (The Monterey Quartet);  Alone (Marc Copland, piano solo).

 

(Ouvir aqui)

 


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 11:24
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